Sunday, October 30, 2005

Insucesso governativo...

O Presidente da Republica pediu a todos os envolvidos na educação, com excepção da Ministra e seus lacaios, que tenham "sentido de missão e solidariedade colectiva" para o combate ao insucesso escolar. Este pedido foi dirigido aos sindicatos, empresários e pais... ficando de fora deste sentido de missão e solidariedade colectiva a ministra de educação, bem como o governo que nos desgoverna.
É engraçado aparecer esta notícia na altura em que se prevê mais contestação por parte dos professores. Tudo isto é muito bem orquestrado para, desta forma, se empurrarem novamente as culpas do insucesso para a parte mais fraca, os professores. Será que o Sr. Presidente da República dá conta que os professores há muito tempo que alertam para estes mesmo problemas?
O insucesso escolar começa em casa. Senão vejamos... os pais trabalham e poucos são os que se preocupam verdadeiramente com a vida escolar dos seus filhos. Reuniões na escola e pedidos de "ajuda" dos professores para a resolução de problemas detectados com o seu filho são simplesmente ignorados ou não possíveis por falta de tempo dos pais. Este problema é real e quem com ele lida sabe que assim é. Quantas vezes o director de turma marca reuniões, a diversos tempos não lectivos, como agora está na moda, para não comparecer um único encarregado de educação? Depois, claro, aparecem as queixas... "porque o meu filho não tira boas notas pois os testes são dificieis...", "porque o meu filho não pode chumbar...", "porque a culpa é do professor e o meu menino até estuda...", “porque eu até o castigava pelo mau comportamento e aproveitamento mas ele disse que se matava…”. A tudo isto acresce ainda o clima de suspeição que é constantemente lançado para a comunicação social por parte do Ministério da Educação. Suspeição do mau trabalho dos professores, do pouco trabalho que têm durante o ano lectivo, das muitas férias e de tudo o que acontece de mal nas escolas deste país.
Esta visão Ministerial do problema esbarra noutras bem mais fáceis de detectar por quem com elas lida diariamente. O aluno que não estuda e que pura e simplesmente coça os tomates à passagem da stôra de história que é boa como o milho e que levava umas fodas valentes…, o aluno que está a cagar para o que aquele filho da puta está a dizer na aula…, o aluno que não passa o que está no quadro porque não lhe apetece…, o aluno que não faz os trabalhos de casa, coitadinho, porque teve que ir à discoteca, ao cinema e jantar fora com os amigos…, o aluno que não estudou para o teste porque esteve a ver a playboy na TV Cabo…, o aluno que quando chamado à atenção para estar atento e não perturbar a aula relembra à stôra que ela tem um carro e pode ficar riscado…, o aluno que agride verbalmente ou fisicamente a stôra porque ia fazer uma participação ao director de turma….
É claro que há insucesso. E é claro também, para quem anda no meio, que grande parte dos nossos alunos não se interessa minimamente pelo que faz na escola. Mais negativa menos negativa, mais pressão menos pressão, o filho de alguém acaba por passar porque:
- tem muita idade e as directrizes do Ministério são para o despachar da escola;
- é conflituoso e o órgão de gestão diz que tem que se mandar o mais depressa embora da escola;
- o encarregado de educação se opõe à retenção repetida e “aqueles critérios todos”, que nós professores conhecemos bem, são analisados e interpretados de maneira a não arranjar mais problemas para quem fica sempre com as culpas.
Pois é. É isto que se passa nas nossas escolas! É com estes alunos que os professores trabalham, sabendo que também há os outros… os interessados, os que no teste tiram para cima de 18 valores, os que fazem os trabalhos de casa, os que os encarregados de educação vão à escola, os que se interessam e fazem pela vida. Mas desses alunos, os que têm sucesso escolar, ninguém se lembra nas horas de “foder” a vida aos professores….